Houve alguma coisa em específico que lhe tenha acontecido que o tenha feito começar a pensar sobre formas de vida alternativas ou foi mais uma compilação de experiências?
Viver durante a Grande Depressão de 1929 ajudou a moldar a minha consciência social. Durante esse tempo, apercebi-me que a Terra ainda era o mesmo lugar, as fábricas de produção ainda estavam intactas e os recursos ainda existiam, mas as pessoas não tinham dinheiro para comprar os produtos. Senti que as regras do jogo se tinham tornado antiquadas e prejudiciais. Isto iniciou uma busca que durou toda a minha vida que resultou nas conclusões e nos desenhos do Projecto Vénus.
As condições de miséria, sofrimento, guerra e os seus lucros eram o incentivo e a inspiração do meu trabalho. Também era motivado pela aparente incompetência dos governos, do mundo académico e pela falta de soluções por parte dos cientistas. Muitos falham como generalistas por causa da sua excessiva especialização em limitados aspectos de problemas sociais. Cientistas, políticos e académicos vêem problemas do interior do sistema em que se inserem, o que causa os problemas para começar. Estou desiludido com os que se preocupam com a terra-formação de outros planetas enquanto o nosso continua cheio de guerra, pobreza, fome e negligência ambiental.
Trabalhar com toxicodependentes, alcoólicos e os chamados delinquentes juvenis na cidade de Nova Iorque convenceu-me que em vez de trabalhar com indivíduos, métodos mais eficazes conseguiriam lidar com as condições sociais que criam comportamentos disfuncionais logo ao início.
Lembra-se do primeiro momento em que desenhou?
Sim. Quanto tinha cerca de 13 anos, um familiar meu enfiou a mão numa ventoinha de metal quando estava ligada. Isto levou-me a desenhar uma ventoinha com lâminas de borracha ou pano. Enviei o modelo para algumas empresas, mas não mostraram interesse. Pouco tempo depois, o produto foi lançado para o mercado. Foi a minha apresentação ao mercado.
Uma vez quando tinha 10 anos, desenhei uma vela especial para uma seita religiosa na cidade de Nova Iorque. Não tinham autorização para acender velas nos seus dias sagrados, por isso desenhei uma que se apagasse automaticamente a que hora quisessem. Temporizei a queima da vela para o tempo necessário. Depois cortei o pavio em diferentes pontos da vela que correspondiam a diferentes horas e puxei para fora o resto do pavio pelo fundo da vela.
Sr. Fresco, depois de reparar no seu trabalho uma grande fé nas mudanças e um grande optimismo em relação ao que parece ser impossível, ou pelo menos, possível num futuro distante (como a previsão da colonização do mar), pergunto-me: onde vai buscar essa grande confiança nos desafios?
Ao trabalhar na indústria aeronáutica aprendi muito sobre aviões que se movem a três dimensões e passam por uma grande variedade de pressões. Era essencial considerar muitas coisas que diferem das estruturas estáticas no solo. Houve desafios como simplificar projectos, eliminar desperdícios notáveis e obter o melhor desempenho gastando o mínimo de energia.
Outro factor encorajador do meu optimismo acerca da resolução de problemas foi a 2ª Guerra Mundial, quando os EUA gastaram milhares de milhões de dólares em armas de destruição maciça no Projecto Manhattan. O custo não foi obstáculo e foi um dos projectos mais e melhor financiados empreendidos até hoje. Apercebi-me de que as mesmas energias que foram gastas nesse projecto podiam ter sido canalizadas para o melhoramento e a actualização do nosso modo de vida, e para atingir e manter as relações simbióticas entre a Natureza e a Humanidade. Se estamos dispostos a gastar essa quantidade de dinheiro, recursos e vidas humanas em tempos de guerra, temos de nos perguntar porque é que não investimos os mesmos recursos no aperfeiçoamento das vidas de todos e antecipar as necessidades humanas futuras em tempos de paz.
Quando os cientistas foram chamados para resolver problemas de natureza militar, as respostas chegaram imediatamente. Isto demonstrou-me a habilidade da ciência e da tecnologia em resolver problemas quando organizadas e financiadas apropriadamente, mas é vergonhoso que estes métodos não sejam aplicados na resolução de problemas sociais à escala global.
É também vergonhoso quando se gastam milhares de milhões em projectos espaciais em terraformação de planetas desabitados para os tornar habitáveis enquanto o nosso planeta é negligenciado e a terra, o mar e o ar são poluídos.
No meu trabalho não tento prever o futuro. Apenas aponto o que é possível através da aplicação inteligente e a utilização humana da ciência e da tecnologia. Isto não coloca os cientistas a gerir a sociedade. O que eu proponho é a aplicação dos métodos científicos ao sistema social para benefício da humanidade e do ambiente.
Com uma olhadela rápida pelo seu currículo dá para ver que é de longe uma pessoa engenhosa e que trabalhou em várias e diferentes áreas. Quando é que se envolveu nas Ciências Humanas e no desenvolvimento de perspectivas para as capacidades humanas?
Fi-lo antes de ser reconhecida como profissão. Começou como uma forma de tornar os procedimentos humanos em tecnologia mais eficientes. Rapidamente, as pessoas começaram a produzir mais em períodos de tempo mais curtos e apercebi-me de que as vantagens beneficiavam mais a indústria do que as pessoas o que me deixou incomodado.
Na sua opinião, quais serão as maiores mudanças a ocorrer no mundo num futuro próximo ou distante?
Temos a tecnologia para construir um paraíso global na Terra, e ao mesmo tempo temos o poder de por fim à vida. Sou um futurista. Não posso prever a sério o futuro--apenas o que pode ser se gerirmos a Terra e os seus recursos de forma inteligente. O que me diferencia de outros futuristas é que eu trabalho em plantas e metodologias reais que podem levar a uma sociedade global sustentável na qual todos terão um elevado nível de vida com maiores liberdades e oportunidades. Se trabalharmos nesta direcção, podemos livrar o mundo da fome, guerra e pobreza--que uma humanidade mundial falhou em conseguir ao longo da história. Se a civilização continua no mesmo caminho, iremos simplesmente repetir os mesmos erros de novo.
Afirma que podemos ultrapassar os problemas mundiais constantes como guerra, pobreza e fome. Como é que isso é possível? Está a trabalhar nalgum tipo de soluções?
Todo o trabalho e projectos sociais alternativos que fiz na vida dizem respeito a soluções para estes problemas. Não se trata apenas de os colocar como remendos sobre os problemas que enfrentamos, mas sempre trabalhei em propostas para eliminar as condições que causaram estes problemas em primeiro lugar. Para responder apropriadamente a esta questão eram necessários volumes. Posso só recomendar o meu livro "The Best That Money Can't Buy". Albert Einstein disse uma vez, "Não podemos resolver os nossos problemas com o mesmo pensamento que utilizamos quando os criámos".
Foi comparado a DaVinci. Como se sente em relação a isso? Sente alguma pressão para atender às expectativas?
Não penso nessa comparação de todo. Não sou pressionado para atingir qualquer expectativa excepto o que está ao meu alcance. Se as pessoas apoiarem o projecto, isso acontecerá. Se não o fizerem, continuaremos com os problemas actuais. Não me cabe a mim. Tudo o que posso fazer neste momento é apresentar uma alternativa possível. O futuro da sustentabilidade da nossa espécie depende das acções que tomarmos hoje.
Sinto que tenho maiores vantagens do que Da Vinci como acesso a mais informação, materiais e métodos.
Está optimista ou pessimista em relação ao futuro?
Nem um nem outro. Não depende só de mim. Faço tudo o que posso para ajudar a trazer um futuro positivo que supere muitos dos problemas que o mundo enfrenta hoje.
Há alguém com quem se queira encontrar?
Qualquer pessoa, grupo ou nação que ajude a promover ou patrocine o Projecto Vénus.
Porque é um auto-didacta?
A instrução na academia não dava importância ao que eu considerava serem os pontos essenciais. Estava interessado na ampla variedade de ligações inter-relacionadas existentes nas ciências físicas, mas os estudos formais isolavam cada ramo científico. Por isso, encarreguei-me de integrar as disciplinas separadas num todo sinergético de forma a aplicar ciência e tecnologia para resolver problemas globais.
Tem algum herói pessoal?
Devo muito a pessoas de várias áreas que contribuíram para esta visão. Pessoas como Júlio Verne, Edward Bellamy, Howard Scott, Thorstein Veblen, H. G. Wells, Sir Jagardis Chunder Bose, Alfred Korzybski, Walter B. Cannon, Stewart Chase, Clarence Darrow, Arthur C. Clarke, Mark Twain, Jacque Loeb, Carl Sagan e muitos outros impossíveis de numerar.
Quais foram os momentos altos da sua vida até hoje?
O momento alto foi o interesse demonstrado pelo Projecto Vénus por parte das pessoas por todo o mundo através da Internet, revistas, livros, documentários e mais.
"Previsão" não é o suficiente para o futuro, precisamos é de "visão". Qual é a diferença entre elas?
Previsão para mim baseia-se nas esperanças, desejos e objectivos dos indivíduos, mas sem projeto prático, não passa de ficção científica. Uma "visão" construtiva requer uma metodologia para atingir o objectivo pretendido de um futuro sustentável. O projecto deve incluir planos para a educação, cuidados de saúde, alojamento, planeamento urbano, transporte, fontes de energia limpas, etc.
Que projectos o motivam ou assustam em relação ao futuro?
O que me deixa entusiasmado em relação ao futuro são as realizações fantásticas que ainda não foram sonhadas e a possibilidade da unificação global. O que me assusta sobre o futuro é a nossa incapacidade para usar a nossa tecnologia de forma construtiva e inteligente.
Como é o seu processo de design? Como é que começa a trabalhar numa coisa?
Pergunto primeiro o que espero conseguir e qual é a abordagem mais simples a um dado problema. Com isto quero dizer, considerando as ferramentas e a informação disponíveis. Se fosse desenhar o avião mais barato, usando o mínimo de materiais com a máxima força, e uma grande margem de segurança, seleccionaria uma asa voadora. A asa voadora exclui fuselagem, cauda, leme e estabilizador. Os passageiros estão sentados na asa. Desenhei vários modelos de asas voadoras no início dos anos 30.
Os projectos sociais devem basear-se na capacidade de carga dos recursos da Terra e não na filosofia, nos desejos, estética ou nas vantagens de determinadas pessoas. Por exemplo, a configuração circular de cidades baseia-se no gasto mínimo de energia para o máximo benefício social. A arquitectura, quando for concebida de forma inteligente, irá usar a quantidade mínima de material para a estrutura mais segura e eficiente possível. À medida que os materiais melhorarem e mudarem, também mudará a arquitectura e as configurações das cidades. Isto não limitará as vantagens, mas irá expandir as amenidades e os bens e serviços disponíveis a todos.
Há alguma área ou disciplina que considere ser mais promissora neste momento, em termos de avanços tecnológicos? Arquitectónicos? Ciência material, talvez?
O ponto de vista generalista que incorpora todos os factores necessários para suportar uma civilização avançada e altamente técnica.
De que forma é que a tecnologia lhe deu a oportunidade de acreditar na objectividade das suas visões e como é que, ao longo da sua carreira, viveu (e continua a viver) na evolução frenética conceptual e formal desta tecnologia?
A tecnologia forneceu as fórmulas e os métodos para resolver problemas em várias áreas do espectro social. Fui sempre confrontado com vários problemas em indústrias como a aeronáutica, medicina, do plástico, do alojamento, desenvolvimento energético, cinematográfica, estudos futuros, etc.
O seu trabalho é realmente vasto e cobre muitas áreas como o desenho, modelos de pequena escala, arte gráfica em 3D, arquitectura, escrita, cinematografia e engenharia; gostaria de saber, como vive as propriedades destes instrumentos?
Aplico todas estas disciplinas diferentes em projectos ambientais utilizando os meios actuais disponíveis para arranjos sociais globais, mas não vejo as minhas soluções e projectos como as fronteiras finais.
Primeiro que tudo, como podemos descrever o futuro e o seu planeamento?
Desenvolvemos a direcção provável que o futuro irá tomar extrapolando a partir dos desenvolvimentos, da tecnologia e das tendência presentes. Também incluímos uma abordagem nova e humana nas nossas propostas dos arranjos sociais e ambientais.
Imaginar é "o ponto de partida" mais importante e é o suficiente para desenhar?
Não, imaginar não é "o ponto de partida" mais importante. A coisa mais importante é ser específico, e não imaginar apenas, mas em vez disso, basear o nosso modelo na ciência e nas tecnologias actuais, e aplicá-lo ao bem-estar de todas as pessoas e à protecção do ambiente. Isto difere de meros desejos, aspirações ou noções filosóficas.
Como é que avalia a concepção do robot no futuro? Como nos filmes de ficção científica, tudo vai ser feito por robots. Vai ser tudo diferente ou serão os humanos o factor mais eficiente?
Os filmes de ficção científica são escritos por artistas e escritores que raramente estão qualificados para descrever desenvolvimentos tecnológicos, particularmente, aplicados ao sistema social. Muitos expressam um medo de tecnologia e falta-lhes um conhecimento mais profundo do potencial humano para o desenvolvimento tecnológico. As tecnologias são apenas extensões dos atributos humanos.
Em países tecnologicamente desenvolvidos, a indústria e o exército estão a atribuir cada vez mais a tomada de decisões à tecnologia das máquinas. Estas não vão assumir o controlo, mas irão eventualmente assumir as tarefas. As máquinas de hoje processam mil triliões de "bits" de informação por segundo. Nenhum humano tem esta capacidade. Num futuro próximo, a operação de uma sociedade global será demasiado complexa para qualquer grupo de humanos sofisticado gerir.
É por isso que defendo urgentemente que a sociedade utilize a cibernética não simplesmente para catalogação e medições, mas também para processar informação vital e canalizá-la para o benefício de toda a humanidade. Somente os nossos computadores mais competentes podem armazenar e encontrar a informação necessária para chegar a análises e decisões equitativas e sustentáveis sobre o desenvolvimento e distribuição de recursos à escala global.
Os escritores e futuristas mais visionários do século XX teriam tido dificuldade em aceitar a possibilidade de robots substituírem cirurgiões, engenheiros, gestores, pilotos de avião e outros profissionais. Já não é impensável que as máquinas possam um dia escrever romances ou poemas, compor música e eventualmente ultrapassar os humanos no governo e na administração de assuntos mundiais.
Isto não é sobre a moralidade e a ética da participação humana, mas uma descrição directa de tendências tecnológicas futuras.
Utilizamos esta informação de forma eficiente?
Não, ainda não somos sábios o suficiente para usar a nossa informação de forma inteligente. Infelizmente, hoje usamos e abusamos da ciência e da tecnologia. Desperdiçamos as nossas mentes mais avançadas e recursos em armas e outros aparelhos destrutivos.
Ao ver uma entrevista sua em 1974 (com o Larry King na altura), certamente foi uma surpresa em termos de prever o futuro da sociedade e sugerir formas de pensar alternativas. Quais foram as reacções que obteve nos anos 70 e quais são as que obtém hoje?
Na altura não houve muita reacção porque as condições eram razoavelmente estáveis. Foi somente quando a sociedade se tornou menos próspera para a maioria das pessoas que o interesse aumentou. Se o filme Zeitgeist: Addendum tivesse sido feito há dez anos atrás, não teria obtido tanto interesse. As condições sociais, mais do que os desejos individuais, são principalmente responsáveis pela mudança social.
Alguma vez ponderou "porque é que estamos aqui"?
A questão "porque estamos aqui?" é uma questão filosófica que não tem referência. Os teólogos têm tentado responder a isso. A nossa resposta é que estamos aqui como um subproduto da evolução. A resposta científica não é uma questão de "porque estamos aqui", é "quais são os processos que geram formas de vida diferentes." Também falamos disto no livro "The Best Money Can't Buy", por Jacque Fresco, em cima na página 19 no capítulo "From Superstition to Science."
E então a última pergunta, Sr. Fresco: na sua opinião, qual é a maior revolução que pode ser realizada hoje?
O Projecto Vénus é um conceito que pode acontecer hoje mas não me cabe a mim, depende do que os outros fizerem para ajudá-lo a concretizar-se.
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